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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Dia de Merda


De Luiz Fernando Veríssimo...! (verídico)
Aeroporto Santos Dumont, 15:30.
Senti um pequeno mal estar causado por uma cólica intestinal, mas nada que uma urinada
ou uma barrigada não aliviasse. Mas, atrasado para chegar ao ônibus que me levaria para o
Galeão, de onde partiria o vôo para Miami, resolvi segurar as pontas. Afinal de contas são
só uns 15 minutos de busão.
"Chegando lá, tenho tempo de sobra para dar aquela mijadinha esperta, tranqüilo." O avião
só sairia as 16:30.
Entrando no ônibus, sem sanitários. Senti a primeira contração e tomei consciência de
que minha gravidez fecal chegara ao nono mês e que faria um parto de cócoras assim que
entrasse no banheiro do aeroporto.
Virei para o meu amigo que me acompanhava e, sutil, falei: "Cara, mal posso esperar para
chegar na merda do aeroporto porque preciso largar um barro."
Nesse momento, senti um urubu beliscando minha cueca, mas botei a força de vontade
para trabalhar e segurei a onda. O ônibus nem tinha começado a andar quando, para meu
desespero, uma voz disse pelo alto falante:
"Senhoras e senhores, nossa viagem entre os dois aeroportos levara em torno de 1 hora,
devido a obras na pista."
Aí o urubu ficou maluco querendo sair a qualquer custo. Fiz um esforço hérculeo para
segurar o trem merda que estava para chegar na estação anus a qualquer momento. Suava
em bicas. Meu amigo percebeu e, como bom amigo que era, aproveitou para tirar um sarro.
O alívio provisório veio em forma de bolhas estomacais, indicando que pelo menos por
enquanto as coisas tinham se acomodado.
Tentava me distrair vendo TV mas só conseguia pensar em um banheiro, não com uma
privada, mas com um vaso sanitário tão branco e tão limpo que alguém poderia botar seu
almoço nele. E o papel higiênico então: branco e macio, com textura e perfume e, ops, senti
um volume almofadado entre meu traseiro e o assento do ônibus e percebi, consternado,
que havia cagado.
Um cocô sólido e comprido daqueles que dão orgulho de pai ao seu autor.
Daqueles que dá vontade de ligar pros amigos e parentes e convidá-los a apreciar na
privada. Tão perfeita obra, dava pra expor em uma bienal.
Mas sem duvida, a situação tava tensa. Olhei para o meu amigo, procurando um pouco de
solidariedade, e confessei sério: "Cara, caguei."
Quando meu amigo parou de rir, uns cinco minutos depois, aconselhou-me a relaxar, pois
agora estava tudo sob controle.
"Que se dane, me limpo no aeroporto." - pensei. "Pior que isso não fico."
Mal o ônibus entrou em movimento, a cólica recomeçou forte. Arregalei os olhos, segurei-
me na cadeira mas não pude evitar, e sem muita cerimônia ou anunciação, veio a segunda
leva de merda.
Desta vez, como uma pasta morna. Foi merda para tudo que é lado, borrando, esquentando
e melando a bunda, cueca, barra da camisa, pernas, panturrilha, calças, meias e pés. E mais
uma cólica anunciando mais merda, agora líquida, das que queimam o fiofó do freguês ao
sair rumo a liberdade. E depois um peido tipo bufa, que eu nem tentei segurar, afinal de
contas o que era um peidinho para quem já estava todo cagado. Já o peido seguinte, foi do
tipo que pesa. E me caguei pela quarta vez.
Lembrei de um amigo que certa vez estava com tanta caganeira que resolveu botar modess

na cueca, mas colocou as linhas adesivas viradas para cima e quando foi tirá-lo levou
metade dos pêlos do rabo junto. Mas era tarde demais para tal artificio absorvente. Tinha
menstruado tanta merda que nem uma bomba de cisterna poderia me ajudar a limpar a
sujeirada.
Finalmente cheguei ao aeroporto e saindo apressado com passos curtinhos, supliquei ao
meu amigo que apanhasse minha mala no bagageiro do ônibus e a levasse ao sanitário do
aeroporto para que eu pudesse trocar de roupas.
Corri ao banheiro e entrando de boxe em boxe, constatei a falta de papel higiênico em todos
os cinco.
Olhei para cima e blasfemei: "Agora chega, né?"
Entrei no último, sem papel mesmo, e tirei a roupa toda para analisar minha situação (que
conclui como sendo o fundo do poço) e esperar pela minha salvação, com roupas limpinhas
e cheirosinhas e com ela uma lufada de dignidade no meu dia.
Meu amigo entrou no banheiro com pressa, tinha feito o "check-in" e ia correndo tentar
segurar o vôo. Jogou por cima do boxe o cartão de embarque e uma maleta de mão e saiu
antes de qualquer protesto de minha parte. Ele tinha despachado a mala com roupas.
Na mala de mão só tinha um pulover de gola "V". A temperatura em Miami era de
aproximadamente 35 graus. Desesperado comecei a analisar quais de minhas roupas
seriam, de algum modo, aproveitáveis. Minha cueca, joguei no lixo. A camisa era história.
As calças estavam deploráveis e assim como minhas meias, mudaram de cor tingidas pela
merda. Meus sapatos estavam nota 3, numa escala de 1 a 10. Teria que improvisar.
A necessidade é mãe da invenção, então transformei uma simples privada em uma
magnífica máquina de lavar. Virei a calça do lado avesso, segurei-a pela barra, e mergulhei
a parte atingida na água. Comecei a dar descarga até que o grosso da merda se desprendeu.
Estava pronto para embarcar. Sai do banheiro e atravessei o aeroporto em direção ao portão
de embarque trajando sapatos sem meias, as calças do lado avesso e molhadas da cintura ao
joelho (não exatamente limpas) e o pulôver gola "V", sem camisa.
Mas caminhava com a dignidade de um lorde.
Embarquei no avião, onde todos os passageiros estavam esperando o "RAPAZ QUE
ESTAVA NO BANHEIRO" e atravessei todo o corredor até o meu assento, ao lado do meu
amigo que sorria.
A aeromoça aproximou-se e perguntou se precisava de algo. Eu cheguei a pensar em pedir
120 toalhinhas perfumadas para disfarçar o cheiro de fossa transbordante e uma gilete para
cortar os pulsos, mas decidi não pedir:
"Nada, obrigado. Eu só queria esquecer este dia de merda!!!"

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